domingo, 20 de abril de 2014

Carta de despedida



“Se, por um instante, Deus seesquecesse de que sou uma marionetede trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diriatudo o que penso, mas, certamente pensaria tudo o que digo.Daria valor às coisas, não pelo o que valem, mas pelo que significam.Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos,perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem,acordaria quando os outros dormem.Escutaria quando os outros falasseme gozaria um bom sorvete de chocolate.Se Deus me presenteasse com um pedaçode vida vestiria simplesmente, mejogaria de bruços no solo, deixandoa descoberto não apenas meu corpo,como minha alma.Deus meu, se eu tivesse um coração,escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saisse.Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas um poema de Mário Benedettie uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua.Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas.Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida!…Não deixaria passar um só dia semdizer às gentes- te amo, te amo.Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado do amor.Aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de seapaixonar quando envelhecem, sem saberque envelhecem quando deixam de se apaixonar.A uma criança, lhe daria asas, masdeixaria que aprendesse a voar sozinha.Aos velhos ensinaria que a morte nãochega com a velhice, mas com o esquecimento.Tantas coisas aprendí com vocês,os homens…Aprendí que todo mundo quer viver nocimo da montanha, sem saber que averdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa.Aprendí que quando um recém-nascidoaperta com sua pequena mão pelaprimeira vez o dedo do pai, o tem prisioneiro para sempre.Aprendí que um homem só tem o direitode olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.São tantas as coisas que pude aprendercom vocês, mas,finalmente não poderão servir muito porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei morrendo”

GABRIEL GARCIA MARQUEZ

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